O tempo vai passando e, a partir de uma certa idade, a gente começa a experimentar sensações progressivamente perturbadoras e merecedoras de reflexões. Os cabelos vão clareando, os fios escuros rareando, mas, no fundo, sabemos que mesmo gerando uma imagem de maturidade e marcando inquestionavelmente o avanço da idade, o cabelo branco não nos envelhece.
Essas sensações não chegam ao mesmo tempo para todos e sua magnitude e potencial de impacto estão diretamente relacionados às vivências, condicionamentos, temperamento, personalidade, capacidade de lidar com transformações e, principalmente, saúde física e mental.
Do ponto de vista psicológico as condições de afetividade são extremamente significativas para proporcionar um envelhecimento de qualidade.
Os relacionamentos com família, cônjuge, filhos, netos e amigos são geradores potenciais de alegria, confiança ou angústia.
Os relacionamentos conjugais convencionais e duradouros, a despeito de todas as conturbações que possam ter tido ao longo do tempo, tendem a trazer maior sensação de segurança, principalmente se a família permanece unida.
Já os menos convencionais, com construção de nova família e com afastamentos de familiares de outros casamentos tendem, muitas vezes, a produzir mais emoções no início e mais incertezas e preocupações com o avanço do tempo. Me refiro, especialmente, àqueles em que haja significativa diferença de idade entre os membros do casal.
Tenho começado a experimentar essas sensações de insegurança e meu caso, como sabem os que conhecem bem minha história, se alinha à última descrição que fiz de relacionamentos menos convencionais.
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Quando saio sozinho com Fernanda, minha filha de 2 anos (a mais nova de uma lista de 6, sendo 5 do primeiro casamento), estou sempre pronto para responder que não sou o avô; sou o pai. Quando saio com ele e com Renata, 39, minha mulher, fico imaginando o que as pessoas que nos vêm ou interagem conosco ficam a pensar. A primeira é: ele deve ser o pai da moça e avô da menina. Se deixamos claro que somos casados com gestos ou carícias, além das alianças visíveis, começo a pensar que as pessoas estão imaginando que eu possa não ser o verdadeiro pai, mas que, provavelmente, ache que sou.
Penso também que podem achar que é adoção (o que não seria nenhum problema, mas como não é, me incomoda que possam pensar isso somente por julgamentos de aparência) ou que eu assumi a filha que era somente da Renata e, portanto, ela me chama de pai.
Alguns, até os mais próximos, amigos ou familiares, perguntam a quem ela puxou com esse cabelo liso, já que o da Renata é cacheado e o meu, quando cresce, fica meio ondulado. Já tenho justificativas prontas para essas perguntas: meu pai, tinha cabelo claro e muito liso e olhos azuis ou o cabelo dela deve mudar quando ela crescer. Coisas desse tipo.
Já recebemos perguntas acerca da concepção; se teria sido artificial, in vitro, ou natural. Se não tivesse sido natural, paciência, estávamos preparados para, em caso de impossibilidade de alguma das partes, tentar isso; mas foi natural.
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Claro que não me importo com isso, mas é interessante perceber que mesmo não me importando com esses eventuais julgamentos ou até com comentários, que as pessoas façam, minha imaginação nunca deixa de funcionar na tentativa de adivinhar seus pensamentos, o que talvez signifique que eu realmente me importe, ou ao menos, me importe ligeiramente mais do que imagino.
Noto que essas sensações têm aumentado. Estou perto de completar 68 anos, com uma mulher de 39 e uma filha de 2 anos.
Meus escassos leitores podem estar querendo perguntar: e Renata? Como se posiciona diante dessas situações e desse seu declarado aumento de insegurança? Bem ela tenta sempre se portar sem nenhuma preocupação com o fato. Leva as minhas inseguranças até no deboche, mas até quando?
Escrevi, em capítulos anteriores, que o futuro não estava me preocupando, mas e agora?
É… uma hora a conta chega.
Enquanto isso vou tomando alguns sustos eventuais à frente do espelho.
Esforço tem que aumentar na academia para minimizar o efeito da perda de massa muscular. Uma chatice academia. Barriga? Ih! Deixa pra lá. Cabelos brancos? Sim; agora praticamente somente brancos. E a barba? Com algum esforço ainda se percebem raros fiozinhos pretos. Quando se é jovem se escolhe camisa escura para ir ao barbeiro, pois a despeito de todos os melhores esforços dos profissionais de hoje, sempre caem uns fiozinhos durante o corte. Hoje escolho as mais claras nessas horas.
Mas a verdade é que cabelo branco não envelhece ninguém; o que nos envelhece é ele: o tempo; e a intensidade da sua ação é mediada pela forma com que lidamos com ele, pela maneira como respondemos aos desafios da sua passagem cada vez mais rápida e marcante.
Saúde mental e saúde física são as melhores armas para combater tais desafios.
Não. Não vou mencionar que a alternativa a viver esse processo não é entusiasmante. Fiquem tranquilos. Vou poupá-los desse clichê.
E tome pranchas e agachamentos para fortalecer o core.




