O urologista que não fez o toque, mas deu um toque

O urologista que não fez o toque

Marquei uma consulta de rotina com o urologista que já me atendia há mais de dez anos. Era início de 2017.

Cheguei, fui cumprimentado por ele ainda na sala de espera, aguardei alguns minutos e logo fui chamado.

Começaram então as perguntas usuais: queixas? Como está a libido? Exames? Eu sempre me antecipava e já chegava com os exames laboratoriais e de imagem que eu sabia que ele pediria. Não esperava a consulta e pedia a prescrição ao meu cardiologista, que o conhece e foi quem o indicou a mim.

Ele analisou os resultados: ultrassom de abdome total e próstata, com resíduo pós-miccional, PSA, testosterona e mais alguns. Como sempre, eu já tinha checado os valores de referência e laudos e já fui sabendo que não havia grande coisa para ser destacada. Observou meus níveis elevados de colesterol e reclamou mais sobre isso do que o cardiologista, mas, quanto à sua área de competência, não fez grandes observações e, juntando os resultados com o meu histórico e o meu prontuário, mas uma vez, para a minha alegria e alívio, dispensou-me do exame de toque retal.

Conversa prossegue e ele retoma as perguntas sobre possíveis queixas. Falo um pouco da minha vida sexual (eu já estava com a Renata) e deixo transparecer alguma curiosidade sobre eventuais avanços da ciência dos quais eu ainda não houvesse tomado conhecimento, no campo da saúde sexual masculina, assunto que, por motivos óbvios, povoa a mente dos homens que vão avançando no tempo e na idade, especialmente aqueles, que como eu, estão no começo de um relacionamento com uma mulher bem mais nova.

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Subitamente ele para de falar e começa a me fitar com um semblante sério e crítico e avança nas perguntas: e a frequência? Intensidade? E a pegada? Começo a estranhar e respondo, com a tranquilidade que consegui extrair após o susto e a surpresa que tive com o interrogatório. De repente veio o bombardeio:

— Você está fazendo essas perguntas porque está com uma mulher mais nova.

— Mas, olha eu não estou reclamando de nada…

— Tenho pacientes aqui que realmente precisam de cuidados e tratamentos, mas você? O que você espera? A julgar pela descrição da sua vida sexual você está muito bem.

— Você não está entendendo; eu não estou …

— Você quer o que? Que eu lhe prescreva um implante de prótese?

— Que lance é esse de prótese, cara? Tá maluco?

— Olha, vou te dar um toque.

— Mas você já tinha dito que não seria necessário.

— Não é isso a que me refiro; vou lhe dar um conselho:

Eu, perplexo, revoltado e assustado:

— O que?

— Livre-se desse relacionamento.

— Por que eu faria isso? Eu a amo e percebo reciprocidade…

— Ah, você está achando que ela está com você pelos seus belos olhos?

E eu, que nem sabia que tinha olhos tão belos assim, retruquei:

— Por que seria então? O que você está insinuando?

— Procure uma mulher de 50 anos, para a sua idade isso seria bem mais adequado e você deixaria de ficar com essa ansiedade.

— Eu não estou ansioso e não pretendo deixá-la por uma de 50, 60, 25, 20 ou 18 anos, simplesmente porque a amo.

— Olha que ela pode arranjar um PA.

— Sobre o que você está falando?

— Bom, depois não diga que não avisei.

Levantei-me, me despedi e fui embora. Nunca mais voltei.

Tenho que confessar que na hora não me dei conta do que ele queria dizer com PA.

Tenho um profundo arrependimento de não ter lhe dito uns bons desaforos, e depois então que lembrei da questão das iniciais, quis voltar lá pensando em atitudes bem menos amenas do que dizer desaforos.

Ele podia pensar o que quisesse sobre o meu relacionamento, mas não tinha que se manifestar, muito menos da forma desrespeitosa como o fez. Não fui buscar conselhos sobre isso. Ele deveria se ater às questões pertinentes à especialidade dele. Se eu estivesse buscando orientações sobre minha vida afetiva procuraria um psicólogo, não um urologista.

Antes de eu ter encerrado unilateralmente a consulta e me levantado para ir embora, ele soltou esta:

— E tem mais ela vai querer ter filhos.

— Não. Não vai. Ela não quer filhos.

— Ah, não quer agora!

Bem, já se passaram sete anos depois dessa infeliz consulta, para dizer o mínimo, e, é claro, as coisas podem mudar na vida de todos, especialmente para aqueles mais afeitos a correr riscos de diversas naturezas, principalmente os financeiros e os afetivos, entretanto, decidi ontinuar alimentando fervorosas expectativas de que ele tenha errado no que se refere às suas observações quanto à possibilidade de um PA, porque quanto ao “Ah, não quer agora”, o cara estava certo.

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Julho/2023

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